Reflexões Planetárias

Tuesday, October 25, 2016

A "selva urbana"

Dizia eu há quase nove anos:
"Nos Estados Unidos, as grandes superfícies comerciais atingiram proporções gigantescas em espaços modernos semi-públicos doentios, adentro de um processo de fragmentação social, em que proliferam os condomínios fechados e o espaço público é abandonado à marginalidade, criando-se assim condições de inseguranca social que justificam, em parte, o boom dos "SUV" para a travessia da "selva urbana".

Não me parecendo estarmos por cá de todo imunes à massificação urbana pelo abuso tecnológico, reforçava então a referência ao "SUV" com a imagem de um grande outdoor que se encontrava na praça Duque de Saldanha em Lisboa.
Reforço agora a referência à "selva urbana" com este desenho que acabei de encontrar entre os meus papeis. Desenho de um jovem estudante publicado há trinta e dois anos no Diário de Notícias de 7 de Fevereiro.
O, então jovem, Francisco Sousa deu-lhe este nome: "Selva".
Fazendo-o vivo e com saúde, interrogo: Que dirá ele hoje, aos quarenta e sete anos de idade?

Há dois anos e meio publiquei um desenho de "Joana" em contraponto com "as cidades felizes de Hundertwasser". "Joana" (de Lisboa) e o jovem de Beja desenham a mesma cidade moderna, enorme, abstrata e mecanizada. Cidade onde não viviam, nem parece que gostariam viver, mas que sentem ou pensam vir ser a cidade do futuro? Porquê?

Saturday, October 15, 2016

Rosinha

Anos cinquenta. João Gilberto retomava a sua amizade com antigos colegas. Visitou então Jonas Silva que ele substituira no grupo vocal "Garotos da Lua", e perguntou-lhe: "Jonas, tens uma viola?".
Jonas respondeu-lhe: "Não, João, sabes bem que não sei tocar viola!"
Nesse mesmo dia Jonas foi comprar uma viola, escolhida com todo o cuidado por um dos maiores amigos de João Gilberto. João apareceu dias depois, tocou uma música composta por Jonas... e foi-se embora. Foi a primeira e última vez que ele tocou naquela viola.*


A canção de Jonas era a "Rosinha". João viria a gravá-la neste album em 1991. Parece que o disco foi gravado apenas com a voz e o violão de João Gilberto, com a posterior adição dos arranjos de orquestra feitos por Douglas Clare Ficher. A linha melódica de Jonas é sussurada "no seu jeito encantado de cantar" por João Gilberto que, no violão, lhe empresta um primeiro grau de subtil complexidade, nos contratempos da batida e no jogo harmónico dos acordes dissonantes. Fisher acrescenta um segundo grau de complexidade, com uma densidade na orquestração (keyboards) que me lembra a textura harmónica West-Coast dos arranjos de Jimmy Giuffre. Bossa-Jazz!
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* Esta pequena história é contada por Daniella Thompson aqui

Sunday, October 02, 2016

Raul Lino - uma nota singela

"Livre como um cipreste" é um documentário de Cristina Antunes produzido pela RTP em 1999.
Gostei muito deste documentário que tive a sorte de, casualmente, "ouver" a desoras.
Os arquitectos entrevistados -Teotonio Pereira, Vieira de Almeida, Diogo Lino Pimentel- apreciaram a sua arte, não deixando de apontar, sem azedume, a sua contribuição para o português suave que Salazar oportunisticamente explorou e Lino consentiu, sem paixão ideológica, mas com genuina dedicação ao estudo da arquitectura popular.

Genuina dedicação que não se radica num grandioso amor pátrio, mas na querença de uma refinada sensibilidade aos lugares afeiçoados pelo tempo e pelas gerações que me trouxe à memória Sitges, reinventada por Santiago Rusiñol, Ramon Casas e Utrillo.
Seria improvável esta comparação se, ao contemplar a Casa de Santa Maria de Raul Lino em Cascais, não tivesse visitado recentemente Cau Ferrat em Sitges!
Sitges, a uma trintena de quilómetros de Barcelona tal como Cascais de Lisboa, como ela uma povoação piscatória, parece-se com Cascais na pitoresca posição geográfica e no acolhedor ambiente mediterrâneo que atraiu a burguesia reinante.
Mas aqui param as semelhanças e vem a grande diferença, legível na arquitectura de Raúl Lino que não tem a jovialdade da cultura parisiense, mas a "gravidade " da cultura anglo-saxónica que lhe trouxe a sua formação no Reino-Unido, com a influência Arts & Ctafts de William Morris e Ruskin, bem como da Alemanha tutelada por Albrecht Haupt.

Apegado a valores tradicionais, não o movia o formalismo visualista e regionalista, de que tem sido acusado e que a sua técnica e sensibilidade artísticas poderiam propiciar; antes cultivava o conforto, o conforto doméstico tal como Rybczynski me deu a conhecer... Passe-se algumas irreprimiveis concessões ao pitoresco, em que o conforto briga consigo próprio!

E ele conseguiu uma coisa rara que não vi noutros arquitectos, artistas de igual sensibilidade: as qualidades dos seus desenhos não se perdem na obra que a patine do tempo enriquece!
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Imagens e suas fontes
-Casa de S.ta Maria, Cascais: Coisas da Fonte
-Casa do Cipreste, Sintra: Al-most-Ly Photography