Reflexões Planetárias

Thursday, June 15, 2017

A Torre do Inferno

Já lá vai o tempo em que Londres estava a salvo da construção de torres, por um principio simbólico: nada podia impedir a vista da cúpula da Catedral de S. Paulo de qualquer ponto da cidade.
Vindas as torres, com elas regressou agora o flagelo do fogo dantesco que persiste na memória londrina desde o Grande Incêndio de 1666 que o Museum of London não se cansa de relembrar.
Torres e torres se ergueram! Entre elas, a "Torre do Inferno" era, até ontem, a Trellick Tower... não por ser combustível mas por ser insociável! O infeliz testemunho passou agora para a Grenfell Tower. As imagens dantescas do incêndio que ontem se declarou, mostram-nos o edifício como uma tocha, envolvido num manto de fogo e fumo que rapidamente se propagou pelas fachadas, dificultando decisivamente a reacção ao incêndio: um bombeiro declarava estupefacto que a água que jorrava das potentes agulhetas se evaporava antes de alcançar o edifício; uma missão impossível!


A parte fraca está pois na fachada. Já na tragédia das "torres gémeas" de Nova Iorque esteve na fachada. Numa inovadora "solução de fachada" para a estrutura resistente que tornou o edifício vulnerável a um, aliás algo imprevisivel, ataque terrorista.

Na Grenfell Tower, a vulnerabilidade está na fachada, ao que parece tornada combustível numa recente (e paradoxal!) "reabilitação", com a aplicação de paineis sandwich que facilitou a rápida propagação do incêndio... ao abrigo de uma regulamentação que, pelos vistos, (ainda) não se preocupa com a combustibilidade interna dos novos materiais compostos! Afigura-se-me ser esta a causa primordial da tragédia, pois não só facilitou a propagação do incêndio mas também dificultou o combate ás chamas.

O inferno das torres e o "pesadelo do ar condicionado" são , a meu ver, resultantes do abuso do progresso tecnológico, na desmesura de uma sociedade invertebrada em que até a "arte como a ciência se desintegrou em actividades separadas"(Herbert Read, The meaning of art). Como o são, na resposta ao dilema energético-ambiental, os "edificios doentes" - casas supervedadas, com baixas taxas de infiltração em prejuízo da qualidade do ar - e, estas "torres do inferno" - grandes edifícios de costas para o clima, cada vez mais isolados pelo (e do) exterior, seja em fachadas ventiladas, seja com paineis sandwich ou sistemas compósitos (tecnicamente designados por ETICS). Estes materiais tendem a generalizar-se em Portugal na sequência da regulamentação energética, pelo que é oportuno atentar nos estudos que já existem sobre o seu comportamento e introduzir pormenores de segurança que, sem dúvida, irão complicar a sua aplicação.

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